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Fotografia Zen

Por: Araquém Alcântara
Índios nadando entorno de uma canoa em rio amazônico.

Que a intenção do ato fotográfico aconteça simultaneamente com a decisão.

Os exercícios (meditar, orar, caminhar em silêncio reparando nas formas e nos espaços vazios) exigem uma grande dose de paciência e resignação diante de  resultados infrutíferos, mas uma vez que sejam bem sucedidos, desaparecerá o último vestígio da intenção e do empenho.

Nesse estado de desprendimento (sem propósito a alcançar) surge uma atitude (a câmera age por si mesma; a espada maneja-se a si mesma). Da mesma maneira como se diz no tiro com arco que algo faz pontaria e acerta, também com a câmera, algo substitui o eu, valendo-se da aptidão e habilidade adquirida pelo fotógrafo (espadachim)  com seu esforço consciente.

E também aqui esse algo designa um poder que não se pode compreender e nem se impor pela razão, pois só se revela a quem o haja experimentado.

Há uma grande e inexplicável diferença que o fotógrafo experimenta entre uma foto apreendida com técnica e esforço e aquela foto que acontece muito raramente, quando todo o seu ser percebe que foi muito além da habilidade técnica, que capturou sem pensar a perfeição da arte, onde tudo se congregou, tudo virou beleza: uma unidade rigorosa de formas, captada numa fração infinitesimal do tempo, em que a mira uniu, como num relâmpago, a mente, a visão e o coração (Henri Cartier Bresson).

O sábio Takuan ensina: assim, tudo é um vazio: você mesmo, a espada que é brandida e os braços que a manejam. Até a ideia de vazio desaparece. Desse vazio absoluto desabrocha, maravilhosamente, o ato puro.

Como se pode espiritualizar uma habilidade técnica? Como converter o domínio soberano da técnica em puro ato do espírito? A resposta é que o discípulo, o aprendiz só progredirá se se desprender de toda intenção e do seu próprio eu. Ele tem que atingir um estágio no qual se desprenda não só do adversário (na fotografia zen, o adversário é a razão, a pressa, o olhar condicionado,  a preocupação em fazer a grande foto, os malabarismos visuais)

Essa sinceridade do diálogo entre observador e coisa observada é extremamente rica e por mais difícil que pareça, de repente acontece: a flecha é disparada por si própria, ela não conduz mais a intenção do atirador

Ave com asas abertas em primeiro plano e ao fundo uma folha de palmeira desfocada.

O maior problema de cada um dos caminhos é conseguir levar o aprendiz ao ponto de onde ele pode começar. Como dizer ao aluno o que significa captar o espírito criador a partir de palavras?

No livro de cabeceira de Henri Cartier Bresson “A arte cavalheiresca do arqueiro Zen”, de Eugen Herrigel, essa é a questão que acompanha a história de sua própria experiência como discípulo de um mestre japonês do tiro ao arco.

Herriguel passou cinco anos tentando encontrar a maneira certa de soltar a corda do arco, pois isso deveria ser feito “não intencionalmente”, do mesmo modo que um fruto maduro rebenta a casca. O seu problema consistia em resolver o paradoxo de praticar incessantemente sem nunca “tentar”, e em largar a corda esticada, sem intenção. O mestre incitava-o a que continuasse constantemente a trabalhar e, precisamente ao mesmo tempo, a que nao fizesse qualquer esforço. A arte não pode ser aprendida a não ser que a flecha “dispare por si só”, a não ser que a corda seja solta wu-hsin e wdu-nien”, isto é, sem “mente” e sem bloqueio, ou “escolha”. Após todos aqueles anos de prática chegou um dia em que a coisa simplesmente aconteceu- como, ou porquê, nunca Herriguel pôde compreender.

Isto deve acontecer na aprendizagem da fotografia zen, do escrever ou pintar. A câmera deve agir por si própria, o pincel deve desenhar por si próprio. Isso significa que o aprendiz deve praticar constantemente… mas também não poderá suceder se o aprendiz fizer esforço. Do mesmo modo, na esgrima, o combatente não deve escolher primeiro um determinado bote e depois tentar dá-lo, visto que nesta altura, será já demasiado tarde.

Decisão e ação (de fotografar) devem ser simultâneas. A ação não pode ser racionalizada, não se pode querer nada, não deve haver intenção de glória ou sucesso.

O mestre de Herrigel não queria que este misturasse os dois estados de esticar e soltar o arco. Aconselhou-o a que o esticasse até o ponto de maior tensão e a que parasse aí sem qualquer propósito na mente quanto ao que deveria fazer a seguir. Assim também, na maneira de ver o za-zen, devemo-nos sentar “só para nos sentirmos” e não deve existir qualquer intenção de alcançar nada.

Devemos olha, contemplar e reparar sem pressa. Sem a busca da captura fotográfica.  Apenas ver, sem razão ou propósito. Absolutamente envolvido, entregue. De repente, a escolha acontece. O clique acontece. E pode ser, que neste momento, o ato maravilhosamente puro de captar o espírito criador, se revele.

Ato absolutamente individual, prazer absolutamente único. Um raro e indefinido prazer.

Pureza da mente é o que devemos buscar.

A imagem capturada assim guarda uma força incrivel. Depois de processada  e mostrada, ganha uma força  poderosa. O observador, ao entrar em sintonia com a obra, transforma-se a si próprio,  o autor  se transforma, a obra se transforma, e o agente de tudo isso é aquele que vê,  sem lugar para onde ir.

Viver é surpresa permanente. Mas chegar a algum lugar é estar morto. Como diz o grande João Guimaraes Rosa, o real está na travessia, não na chegada.

Alcançar um resultado o mais depressa possível não tem nada a ver com a arte, com a fotografia zen. Isso torna o mundo sem substância.  Os pontos de chegada são demasiadamente abstratos, demasiadamente euclidianos para se poderem apreciar, é quase como comer as extremidades de uma banana, desperdiçando o  conteúdo.

Como no zen, não há fim a alcançar, é uma viagem com o coração.

Árvore acima das copas das árvores em uma floresta densa tropical. Árvore com aspecto de velha, mas ainda viva e repleta de bromélias. Um pouco de neblina ao fundo.

O zen é uma libertação do tempo. Se abrirmos os olhos e virmos claramente, se torna óbvio que não há outro tempo a não ser este instante , este “eterno agora”,  que o passado e o futuro são abstrações, sem qualquer realidade concreta.

Ao “espiritualizar”o ato fotográfico nos libertamos do banal, nos tornamos mais inventivos e nos aproximamos da verdadeira  luz da realidade, do estado criador puro.

Esse é o mote: para mim só existe um caminho, o caminho do coração, e nele eu viajo, viajo, olhando, olhando…sem fôlego.

Boa sorte na caminhada de vocês, meus queridos.

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